Nenhum vinho do mundo desperta reações tão divididas quanto a retsina. Para muitos, é a lembrança de uma jarra servida gelada demais numa taverna à beira-mar; para a crítica internacional dos últimos anos, é uma das categorias mais fascinantes da Grécia. As duas imagens são verdadeiras, e a distância entre elas é a história que vale contar.
Um vinho nascido das ânforas
A retsina é o vinho mais antigo e tradicional da Grécia: um branco (ou rosé) ao qual se adiciona, durante a fermentação, uma pequena quantidade de resina natural de pinheiro de Alepo. A prática remonta à Antiguidade, quando as ânforas eram seladas com resina para conservar o vinho na travessia do Mediterrâneo. A tecnologia envelheceu e desapareceu; o sabor ficou. O que era necessidade virou identidade, tanto que a retsina é hoje reconhecida na União Europeia como uma Denominação por Tradição.
Por que a retsina caiu em desgraça
Durante décadas, a retsina foi vítima do próprio sucesso. Produzida em massa no pós-guerra e exportada a granel, chegou ao mundo como um vinho barato, muitas vezes oxidado e com resina em excesso, o suficiente para marcar gerações inteiras de consumidores. O preconceito não era injusto: era o retrato de um produto industrializado. Faltava alguém disposto a tratá-la como vinho de verdade.
A família que reescreveu a história

Essa virada começa em 1939, na velha Tessalônica, quando a família Kechris servia a sua própria retsina na taverna “Kokoras” (“o Galo”). Em 1954 o negócio tornou-se uma vinícola-destilaria moderna e, sob a liderança de Stelios Kechris, químico e enólogo formado na Universidade de Dijon, assumiu uma missão incomum: elevar a imagem da retsina no mundo inteiro.
O primeiro grande golpe veio com o Kechribari (“âmbar”, em grego), produzido desde 1939: em 2003 tornou-se a primeira retsina a conquistar uma medalha de ouro no concurso internacional de Tessalônica. Hoje soma mais de 35 prêmios internacionais, com distinções de Decanter, International Wine Challenge, Mundus Vini e Vinalies.
Tear of the Pine: a retsina que virou vinho de guarda

Se o Kechribari abriu a porta, o Tear of the Pine (“Lágrima do Pinheiro”) derrubou a parede. Feito de Assyrtiko dos vinhedos próprios em Goumenissa, no norte da Grécia, fermenta em barricas novas de carvalho e amadurece seis meses sobre as borras, com bâtonnage regular. O resultado é a primeira retsina com potencial de guarda de até dez anos, algo impensável para a categoria, e uma camada resinosa que se integra à estrutura do vinho em vez de dominá-la.
O reconhecimento veio no lugar mais visível possível: Best in Show no Decanter World Wine Awards 2024, a faixa mais alta da premiação mais influente do mundo.
Como provar e com o quê
Sirva fresca, mas não congelada (10-12 °C): o frio excessivo abafa justamente o que há de mais interessante. À mesa, a retsina brilha com peixe grelhado, frutos do mar, charcutaria e queijos curados. A resina e a acidez cortam gordura e fritura com uma naturalidade rara, por isso funciona tão bem também com pratos de forte umami, de petiscos fritos a receitas asiáticas.
Por onde começar
Há três portas de entrada. Para conhecer o estilo tradicional, o Notos Retsina Branco, da Kanakaris, é honesto e acessível. O Kechribari, a retsina de referência da própria Kechris, é o passo seguinte, a que abriu caminho para as medalhas. Para entender por que a crítica mudou de opinião, o caminho é o Tear of the Pine, uma garrafa que vale servir às cegas a quem jura não gostar de retsina.
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